quinta-feira, 5 de junho de 2008

Estréia do documentário

Projeto desenvolvido na Cadeia Feminina de Votorantim ganha as telas
A voz da mulher encarcerada é retratada em documentário


O documentário "Povo Marcado" será lançado no próximo sábado (07/06), no Auditório Francisco Beranger em Votorantim/SP, às 20h, com entrada gratuita*. Para a estréia, estão confirmadas as presenças do ator Paulo Betti e da dupla Caju e Castanha. Estes últimos irão se apresentar logo em seguida, no mesmo local, pelo projeto "Vizinhos Afinados".
A produção foi dirigida pelos jornalistas Werinton Kermes e Luciana Lopez e retrata o programa de rádio "Povo Marcado", um projeto inédito no país, que teve início no segundo semestre de 2007, na Cadeia Feminina de Votorantim (interior do estado de São Paulo). O programa é produzido pelas detentas, com apoio de jornalistas voluntários e de uma equipe técnica, e que pode ser retransmitido para mais de 1000 emissoras, através da Rádio Câmara.
O documentário traz mais do que uma discussão sobre o cárcere feminino no Brasil. Propõe repensar o universo feminino carcerário, uma vez que foi realizado a partir de um trabalho desenvolvido por quem não tinha expectativa nenhuma. "Nós sabemos que existem vários trabalhos audiovisuais que mostram a realidade carcerária. A nossa intenção foi ir além e proporcionar reflexão sobre o que é possível ser feito para que os encarcerados possam cumprir suas penas e retornar ao convívio social depois que pagar pelos seus crimes. O documentário pretende ampliar a divulgação das possibilidades de ações culturais em presídios e cadeias e salientar que isto não depende única e exclusivamente dos poderes públicos, pois qualquer um pode contribuir com ações como a retratada", disse Werinton Kermes, diretor do documentário.
Cópias do material estão sendo enviadas para festivais de todo o Brasil e também serão enviadas para outros países das Américas e da Europa. O filme foi traduzido para o inglês e espanhol.
Compõem o roteiro, depoimentos emocionados de familiares das detentas que acompanham de suas casas, através do rádio, os programas realizados na Cadeia. "As detentas também participaram do documentário com a mesma dedicação que fazem o programa de rádio, uma vez que elas sabem que o filme vai alcançar pessoas que jamais poderiam ouví-las", explicou Kermes. O média-metragem conta também com a participação de alguns dos entrevistados no programa de rádio, entre eles, o ator Paulo Betti, o Padre Júlio Lancelotti, o promotor Wellington Veloso e da dupla Caju e Castanha, que compôs uma embolada especialmente para o filme.

"Ao retratar o programa das detentas, o documentário mostra que a recuperação de encarcerado, depende de oportunidades, tanto de trabalho como de voz, enquanto pagam pelos crimes que cometeram. Caso contrário, continuaremos a ser vítimas desse sistema falido, que não recupera, apenas acondiciona pessoas da pior forma possível, o que desfavorece a saída do mundo do crime", afirmou Luciana Lopez, também diretora do filme.
A intenção dos produtores é exibir o vídeo em locais estratégicos, como Assembléias Legislativas, espaços culturais, e para formadores de opinião, como jornalistas, universitários, além de canais de TV com programação cultural e educativa. "Vamos mostrar para as presas de Votorantim e já recebemos convites para exibí-lo na Casa da Gávea (Rio de Janeiro/RJ), na UFMA (São Luís/MA), na TV Rede Minas (MG). Também faremos exibições em Brasília, em frente ao Palácio da Justiça, e outra em São Paulo, na praça João Mendes (em frente ao Fórum), com isto acredito que estamos contribuindo de forma prática para que o sistema carcerário brasileiro possa ser repensado", concluiu Kermes.
Segundo Míriam Cris Carlos, doutora em Comunicação e roteirista do documentário, a intenção é tornar ampla e pública essa questão da 'inclusão pela comunicação' e para isso exemplificar com um projeto que deu certo e que pode ser adotado como referência em outros locais, que é o Programa Povo Marcado. "Os meios de comunicação, principais fontes de construção da realidade e da crítica, sob a óptica deste trabalho, faz emergir um universo de vozes caladas, que desejam ser ouvidas, por mais incômodas que possam ser as mensagens que elas veiculam", explicou.

O documentário tem 30 minutos e foi produzido pela PROVOCARE Multimídia, com edição de imagens de Marcelo Domingues. Contou com o apoio da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Cadeia Feminina de Votorantim/SP, Secretaria de Cultura de Votorantim/SP, Grupo Imagem e Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região.


*Para a estréia será necessário confirmar presença pelo telefone (15) 3353-8669 com Sandra.



O trailer do filme está disponível no site:
http://br.youtube.com/watch?v=APdXU_Ggfzs


Ficha técnica:
Direção: Werinton Kermes e Luciana Lopez; Roteiro: Míriam Cris Carlos; Edição: Marcelo Domingues; Produção: Luciana Lopez; Direção de fotografia: Werinton Kermes; Câmeras: Alexandre Miliani, Edson Cortez, Leandro Alamino, J. Valério, Jonathas Ventura Ribeiro, Jorge Silva, Regis Augusto Miliani e Werinton Kermes; Trailer: Leandro Alamino; Fotos: Marcos Ferreira; Still: Luciana Lopez, Marcos Ferreira e Werinton Kermes; Decupagem: Carlos Augusto Matias, Cintian Moraes e Vanessa Travassos; Estagiárias: Giulia Braga e Vanessa Nunes; Contra-regras: Rosano Soares, Renato Garcia e Adriano Gianolla; Equipe externa do Programa "Povo Marcado": José Carlos Balotim, Davi Alamino, José Carlos Nogueira, Elizabete Silveira, Cristiane Carvalho, Aristides Matias, Sandra Regina Gonçalves e Jonas de Camargo.

Currículo resumido dos diretores

Werinton Kermes é jornalista e documentarista, nascido em Sorocaba/SP. Começou sua carreira profissional como repórter fotográfico onde trabalhou em diversos jornais brasileiros. Iniciou suas atividades profissionais em 1979, como laboratorista, no Jornal Diário de Sorocaba, logo depois atuou nos seguintes jornais: Jornal Cruzeiro do Sul, Jornal O Estado de S.Paulo, Jornal da Tarde, Jornal Folha de S.Paulo, Jornal Diário Popular, Revista Marie Claire, Revista Veja e Revista Isto É.

Como Stiil de cinema participou de vários filmes: "Através da Janela", de Tata Amaral, "Nelson", "Nenê de Vila Matilde, Geraldo Filme", de Carlos Cortez, "Castelo Rá-Tim-Bum", de Cao Hamburger, "Um sonho no caroço do abacate" de Lucas Amberg.
Como documentarista é vencedor de vários prêmios. Entre suas realizações, está "João do Vale - muita Gente Desconhece" (2005), uma vídeografia do cantor e compositor Maranhense João do Vale. Além deste, também dirigiu: "O Caipira e o rio"- 1998; "Aramar, a quem pertence?"-1999; "A dama da sétima arte"- 2000; "Quem tem medo de Salvadora Lopes" – 2001; "Vida Fácil"- 2002; e o mais recente: "Povo Marcado"- 2008
É autor do livro de fotografias "Nossa Arte à Meia-Luz", publicado pela Secretaria do Estado da Cultura de SP, co-autor do livro "Arteiras Sorocabanas", fundador do "Grupo Imagem – Núcleo de Fotografia de Sorocaba", professor universitário e diretor do Programa de entrevistas PROVOCARE TV.
Atualmente é secretário de Cultura de Votorantim/SP.


Luciana Lopez é jornalista e radialista. Reside em Votorantim/SP, onde coordena o Programa de rádio "Povo Marcado", produzido na Cadeia Feminina da cidade. Também é produtora do Programa PROVOCARE TV e editora da Revista PROVOCARE – Sociedade, cultura e arte. Recebeu dois prêmios jornalísticos com temática relacionada aos Direitos Humanos (ASI/SCHAFFLER). Atuou como assistente de direção e produtora do curta-metragem "O Ciclo da Luz", de Marcelo Domingues e como co-diretora e produtora do documentário "Povo Marcado".


http://povomarcado.blogspot.com

povomarcado@gmail.com

Imagens do documentário POVO MARCADO









Imagens do documentário POVO MARCADO











domingo, 6 de abril de 2008

sábado, 16 de fevereiro de 2008

RADIOBRÁS - AGÊNCIA BRASIL

27 de Janeiro de 2008 - 17h48 - Última modificação em 27 de Janeiro de 2008 - 17h48

Programa de rádio abordava
problemas do dia-a-dia de detentas

Morillo Carvalho
Repórter da Agência Brasil


Com vinheta tendo ao fundo a música Admirável Gado Novo, do cantor Zé Ramalho, toda semana, os moradores do município paulista de Votorantim, sabiam que começava um programa de rádio feito de dentro do presídio feminino da cidade.

A forma de ultrapassar os muros que cercam o Presídio Feminino do município possibilitou novas perspectivas de vida para as detentas. O programa Povo Marcado funcionava assim: uma equipe, formada pelos coordenadores, cuidava da produção fora do presídio.

A outra era composta pelas próprias presas, e cuidava dos detalhes quando o programa ia entrar no ar. Ele era veiculado por duas rádios comunitárias locais e uma parceria com a Câmara dos Deputados garantia a distribuição para qualquer emissora do Brasil, por meio da Rádio Câmara.

Vitória se encarregava da apresentação. Ex-operadora de telemarketing, aos 23 anos, está presa há um ano e meio e participava do programa desde que chegou na prisão.

“Minha vida melhorou bastante. É até uma forma de a minha família ter mais contato comigo. Para as demais [detentas], também. Foi uma forma de melhorar a nossa auto-estima”, avalia.

Mas o programa Povo Marcado saiu do ar e, se vai voltar, ainda não se sabe. É que, em 14 de dezembro do ano passado, elas promoveram uma rebelião que durou pouco mais de 12 horas. As transmissões foram suspensas.

Elas pediam a transferência de presas, que superlotavam o local. Idealizada para abrigar apenas 48 mulheres, a cadeia tinha cerca de 215. Antes da rebelião, o secretário de Cultura do município, Werinton Kermes, que idealizou e coordenava o programa, explicou a situação do presídio feminino de Votorantim.

“É uma diferença muito grande no número da capacidade e o de presas que ela [a cadeia] abriga. Isso causa muitos problemas para a cidade, por estar localizada no centro, e a gente, constantemente, assistia a rebeliões, queima de colchões, protestos de familiares. A secretaria de Cultura de Votorantim começou a pensar de que forma ela poderia incluir ações culturais para que a vida dessas encarceradas pudesse se tornar algo pelo menos suportável”, contou.

A superlotação sempre foi um problema por ali e o programa, segundo o secretário de Cultura e as próprias presas, ajudava a evitar conflitos e até mesmo rebeliões, que são pouco comuns entre as detentas.

Suspenso e sem prazo para voltar ao ar, o programa Povo Marcado foi o canal para que as presidiárias pudessem expressar a realidade interna das penitenciárias femininas, a mesma constatada por levantamentos do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), detalhados pela coordenadora do núcleo fixo da instituição, Luciana Zafalon.

“Hoje nenhuma espécie de direito é assegurado de forma hegemônica no sistema carcerário. No caso específico de visita íntima, para as mulheres, é um direito que é tratado como liberalidade, o que é inadmissível. A gente [ainda] tem um déficit muito grande de vagas de trabalho remunerado, e há que se esperar que o preso e a presa tenham condições de trabalhar”, cita.

O Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência contra as Mulheres é um projeto da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), que articula entre os ministérios a distribuição de R$ 1 bilhão de reais a serem gastos entre 2008 e 2011. Um dos pontos principais do pacto é a promoção dos direitos humanos das mulheres em situação de prisão. Em reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Carcerário em dezembro do ano passado, a ministra da SPM, Nilcéa Freire explicou como deve ser a distribuição da verba.

“Eles [os recursos] serão investidos a partir da cooperação com os governos estaduais. Cada governo que adere ao pacto formula um projeto integral para o estado, de acordo com os governos municipais, e nós financiaremos”, disse a ministra, explicando que, para cada área contemplada pelo pacto, há uma forma diferente de repasses.



http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/12/21/materia.2007-12-21.7509797467/view

RADIOBRÁS - AGÊNCIA BRASIL


3 de Dezembro de 2007 - 19h31 - Última modificação em 3 de Dezembro de 2007 - 19h31

Experiências do cárcere marcam
programa de rádio de detentas de Votorantim


Morillo Carvalho
Repórter da Agência Brasil



Brasília - O sobrenome, elas preferem não revelar. Tampouco o motivo pelo qual estão no Presídio Feminino de Votorantim, no interior de São Paulo. Mencionam apenas o número do artigo do Código Penal a que se refere o crime do qual são acusadas.

São mulheres que cumprem pena e, ao mesmo tempo, mantêm uma ocupação: semanalmente, elas produzem, de um estúdio instalado em uma das celas da prisão, o programa de rádio Povo Marcado.

A mensagem delas não é ouvida somente dentro da cadeia: duas rádios comunitárias do município transmitem o programa.

Além disso, por meio de uma parceria, a Rádio Câmara, da Câmara dos Deputados, disponibiliza o programa em seu site: www.camara.gov.br/radio. Qualquer cidadão ou emissora de rádio pode fazer o download do Povo Marcado.

Antes pautado apenas por assuntos internos, como a superlotação do presídio e a saúde das detentas, as entrevistas passaram a fazer parte e logo tornaram-se atração principal do programa.

Já passaram pela cela-estúdio artistas como Paulo Betti, ativistas como o padre Júlio Lancelloti, da Pastoral do Povo de Rua, além de médicos, promotores de Justiça e advogados.

Há cerca de dois meses, Vitória se encarrega da apresentação. Ex-operadora de telemarketing, ela tem 23 anos de idade e está presa há um ano e meio.

"Minha vida melhorou bastante. É até uma forma de a minha família ter mais contato comigo. Para as demais [detentas], também. Foi uma forma de melhorar a nossa auto-estima”.

Duas equipes operacionalizam o programa: uma, composta pelas presas, faz a parte interna do programa – tudo o que é necessário e que não pode ser feito fora do presídio.

A outra cuida da produção do lado de fora, como o contato com entrevistados e a viabilização para que eles se dirijam à cadeia. Quem cuida dessa parte são os coordenadores do projeto.

O secretário de cultura de Votorantim,Werinton Kermes, é o idealizador do projeto. Segundo ele, o presídio recebe presas de outros 75 municípios da região. Hoje, há 215 detentas, embora o local só comporte 48.

“O programa nasceu a partir da idéia de uma de nossas coordenadoras [da secretaria], a Luciana Lopez. Ela sugeriu fazer uma oficina de rádio para melhorar a comunicação entre as detentas e entre elas elas e as visitas”, conta. “O detento perde muito de seu vocabulário original, cria gírias, daí a necessidade da oficina".

O secretário diz que, como o interesse pela oficina foi grande, produziu-se muito material. Foi então que surgiu o Povo Marcado. No início de 2006, Kermes e Luciana procuraram a rádio comunitária de Votorantim para veicular o programa.

“A princípio, o programa gerou uma certa desconfiança e preocupação do público, até mesmo de autoridades. Conforme fomos mostrando que as meninas querem apenas se comunicar e ocupar o ócio de forma útil para a sociedade, as pessoas se convenceram de que as detentas têm potencial e condições de entrarem na casa das pessoas”.

Ele diz, ainda, que o programa também ajudou a diminuir o número de rebeliões. “Antes dele nascer, a gente assistia constantemente a rebeliões, queima de colchões, protestos de familiares”.

http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/12/03/materia.2007-12-03.4490864264/view

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

14/11/2007


Reportagem sobre o
Programa Povo Marcado é premiada

O Jornalista Wilson Gonçalves Junior do jornal “Folha de Votorantim” foi o grande vencedor do VII Prêmio Jornalístico ASI / Schaeffler Group de Direitos Humanos. A reportagem premiada relatava com sensibilidade e precisão o primeiro programa de rádio “Povo Marcado” realizado pelas detentas da Cadeia Pública de Votorantim.

O evento da Associação Sorocabana de Imprensa foi realizado na Câmara dos Vereadores de Sorocaba em 14/11/2007, e premiou as três melhores matérias de cada categoria (“Jornalismo impresso”, Foto-jornalismo”, “Rádio”, “Televisão e “Repórter-cinematográfico“), com temática relacionada a promoção dos direitos humanos e sociais. Os vencedores de cada categoria ganharam um troféu e prêmio em dinheiro, de acordo com a classificação. E a melhor reportagem, entre todas, conquistou também o prêmio especial “Tim Lopes”.

O repórter da Folha ficou em primeiro lugar na categoria impresso e a matéria dele foi escolhida como a melhor entre mais de 50 trabalhos inscritos nesta edição.

A equipe do Programa Povo Marcado aproveita este espaço para parabenizá-lo pelo prêmio. Isso é motivo de alegria e traz mais incentivo para a continuidade do Programa Povo Marcado e demais projetos culturais realizados na Cadeia.

Luciana Lopez
Werinton Kermes
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Momento da entrega do Prêmio
"Tim Lopes" para o jornalista Wilson Júnior
(segundo da direita pra esquerda)
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A seguir segue a matéria premiada, gentilmente cedida pelo jornalista Wilson Júnior.

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Um antídoto contra o preconceito e a
favor da ressocialização nas ondas do rádio

Programa “Povo Marcado”, gravado na Cadeia Pública
Feminina de Votorantim e produzido pelas presas, foi ao ar pela
primeira vez na quarta-feira na rádio Nova Tropical FM (105,9).

Wilson Gonçalves Junior
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Matéria publicada no jornal Folha de Votorantim em 23/06/2007


“Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente. A gente muda o mundo na mudança da mente. E quando a mente muda a gente anda pra frente. Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura. Na mudança de postura a gente fica mais seguro. Na mudança do presente a gente molda o futuro”.
A música “Até Quando”, de Gabriel Pensador foi executada durante a estréia do programa “Povo Marcado” e assim como “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho - um trecho da canção dá nome a iniciativa - pode ser considerada sua verdadeira causa: dar uma nova oportunidade a quem está em situação adversa e encontra-se com sua liberdade cerceada devido uma transgressão às leis da sociedade. Ao ar pela rádio Nova Tropical FM (105,9), o programa foi produzido e apresentado pelas presas e gravado dentro da Cadeia Pública Feminina de Votorantim na tarde de terça-feira.
O “Vida de Gado”, que é uma iniciativa da secretaria de Cultura de Votorantim e da administração da cadeia feminina, busca um antídoto contra o preconceito existente contra as detentas, reafirmando que a ressocialização é possível através da possibilidade de “mudança”. O programa tem como proposta mostrar a realidade atrás das grades tendo as detentas como interlocutoras, e tentar assim, diminuir o distanciamento entre a sociedade e a população carcerária. O primeiro programa teve como entrevistado, o arcebispo de Sorocaba, Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues e já outras convidados estão agendados, como deputado, juiz e promotor. O programa apresentou uma interação com toda a cadeia, com perguntas feitas pela apresentadora e outras detentas. A programação musical teve o já citado Gabriel Pensador, Seu Jorge, Raul Seixas, Zé Geraldo, entre outras.
A delegada responsável pela cadeia de Votorantim, Sueli Morales da Silva, é uma entusiasta da ressocialização e mesmo diante da superlotação da cadeia que tem capacidade para 48 e hoje abriga 182 presas, ela enxerga um horizonte novo para estas mulheres através de iniciativas como a do programa de rádio, que segundo afirmam é inédito em todo país. Sueli disse que achou o projeto apresentado pela secretaria de Cultura viável e resolveu apostar na idéia, justamente pela oportunidade das pessoas conhecerem o outro lado e perceberem, a partir dai, que as presas são inteligentes e seres humanos como outro qualquer. Neste caso específico, explicou ainda, muitas delas são levadas à vida do crime - principalmente ao tráfico de drogas - pela influência dos seus companheiros. “Se as pessoas conhecessem o outro lado, atrás dos portões de uma cadeia, eles iriam ver que não é uma vida fácil. Concordo, cometeram crime e estão pagando por ele. Mas a obrigação do estado pela lei é ressocializar novamente a pessoa, pra quando ela sair, ter uma vida junto à sociedade e não retornar ao crime”.
O arcebispo de Sorocaba, Dom Eduardo Benes, detentor da orientação católica - do perdão após arrependimento do erro - também crê na ressocialização. Para ele, se todas as sociedades fossem sadias e as pessoas voltadas apenas para o bem, os crimes diminuiriam e aqueles que o cometeram, teriam o apoio da comunidade para voltar a uma vida digna do ponto de vista moral e social. Dom Eduardo acredita ainda que o rádio pode estreitar os laços entre as detentas e a sociedade. “Acho que é importante que a sociedade participe da vida das prisões, para poder sentir-se responsável pela ressocialização daqueles e daquelas que por uma infelicidade foram levados a esta situação”.
O secretário de Cultura de Votorantim, Werinton Kermes, disse que a idéia de se criar o programa de rádio surgiu juntamente com outras atividades, introduzidas pela prefeitura de Votorantim através do “Leitura em Cadeia”, que já possui quatro anos de existência. Esta vivência, frisou, comprovou que o rádio é o grande companheiro das mulheres dentro das celas. “A idéia é trazer ao programa pessoas chave, como promotores, juizes e coronéis da Polícia Militar e que possam ser um elo pra mudar esta realidade delas, porque são 48 vagas para cada 200 presas e isso é desumano”.

“Vida de Gado, povo marcado”

As reeducandas que participam da produção do programa “Vida de Gado” são: Viviane Fernandes (apresentadora do programa), de 32 anos; Valdirene de Fátima Borges Gomes, de 25 anos (produção) e Raquel Aparecida Santos Costa, de 20 anos, (produção e descobridora de talentos dentro cadeia) “Vida de Gado, povo marcado eu”- As marcas citadas, que são a continuidade da letra da música que dá nome ao programa, estão presentes em cada palavra proferida pelas detentas entrevistadas.
A reeducanda/apresentadora Viviane destacou que a sociedade tem uma imagem distorcida da vida de dentro do cárcere e que o programa de rádio vai desmistificar essa idéia de que nas cadeias não existem pessoas talentosas, mães de famílias e seres humanos. “Isto não é um depósito de ser humano. Não adianta o ser humano errar e você jogá-lo num deposito três ou quatro anos. Se ele sair desta maneira, ele vai voltar a fazer o que fazia, porque não teve oportunidade. Quando sai é pior ainda, porque existe o preconceito e muita gente não abre a porta; independente que ela (presa) tenha curso ou profissão antes. Ele fica carimbado (a tal marca) e pra sociedade não tem mais valor pra você voltar no mercado de trabalho. Isso que a gente quer mostrar, que tem talentos, mães de família, etc”.
Viviane lembrou ainda que o programa também será uma ligação entre as detentas e seus familiares, já que muitas delas não recebem visitas, tendo em vista que os entes de algumas presas moram em lugares distantes de Votorantim e não possuem condições financeiras de estar viajando frequentemente.
Já produtora e responsável pelo caça-talentos dentro da cadeia é a reeducanda Raquel Santos. Ela está presa há seis meses por tráfico de drogas e citou que as presas possuem talentos e sentimentos, explícitos muitas vezes em poesias e cartas escritas de dentro das celas. Ela concordou com Werinton e apontou que o rádio realmente é o grande companheiro das encarceradas. Já reeducanda Valdirene Borges, presa desde abril de 2006, também participa da produção do programa e é um desses talentos. Todo programa, além das vinhetas, ela faz o louvor com a canção “Prisioneiras”.
Raquel disse que está tomando o tempo de prisão para fazer uma avaliação dos erros cometidos e lembrar a cada momento as palavras da mãe, que sempre apontava o rumo errado que ela estava tomando. “Pra mim, isso aqui tá sendo um tempo de reflexão mesmo, dos erros cometidos. Nunca ouvi minha mãe e é isso que eu mais penso hoje em dia. Quando eu sair daqui, quero fazê-la rir e não mais chorar”, pontuou emocionada, fazendo mais uma mostra da citação de Gabriel Pensador: “na mudança do presente a gente molda o futuro”.

Equipe

As presas que integram o projeto do programa radiofônico “Povo Marcado” têm a orientação voluntária da doutora em Comunicação, Míriam Cris Carlos, da jornalista e radialista Luciana Lopez com auxílio técnico de Davi Alamino e José Carlos Balotim. Além da emissora de rádio comunitária de Votorantim, o Programa será exibido nas rádios comunitárias de outras duas cidades da região de Sorocaba: Iperó e Boituva. A Secretaria de Cultura de Votorantim também negocia com a TV a cabo local a possibilidade de criar a versão televisiva do Programa “Povo Marcado”. As Rádios que queiram veicular o Programa podem entrar em contato com a Secretaria de Cultura de Votorantim pelo telefone (15) 3353-8669.


quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Nova apresentadora

Em Setembro, a reeducanda Viviane Fernandes, apresentadora do Programa Povo Marcado, foi transferida da Cadeia de Votorantim para outra unidade prisional, assim como outras reeducandas.
Uma nova equipe de produção foi formada e agora o Programa conta com a apresentação da reeducanda Vitória Dias.
A estréia da nova apresentadora foi no início de outubro em entrevista com o Padre Lancelotti.
Aliás nesse programa, a equipe do Profissão Repórter, do Fantástico (TV Globo) esteve na cadeia produzindo uma reportagem sobre jornalismo comunitário.
Seguem fotos destes momentos:

Nova apresentadora Vitória




A Equipe do "Profissão Repórter" do "Fantástico"
da TV Globo, acompanhou a gravação do Povo Marcado





O Padre Júlio Lancelotti
conversou com as reeducandas



Entrevista com o Padre Júlio Lancelotti
Ele respondeu aos questionamentos da apresentadora...

... e também das reeducandas.

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Momento da transferência de algumas reeducandas